terça-feira, 8 de agosto de 2017

;)

Um dia eu parei para conversar comigo um pouco.
Estava agitado, com tantos compromissos para dar conta que não quis me ouvir e um eu ficou no lugar feito estátua falando, enquanto o outro continuava a mover-se muito rápido fingindo que entendia tudo, apesar de cuidar de tantas coisas ao mesmo tempo.
Um Eu falava e o outro gesticulava que ouvia;
O Eu que falava não se dava conta que o outro nada dizia;
O Eu que mudo ficava tinha melhores palavras que o primeiro falante insistia.
O Eu que calava invejava as palavras do falante que se exibia
O Falante falava demais, mas nunca bastava para explicar o que queria.
Queria muita coisa, mas coisas simples complicavam as muitas vontades que suas palavras diziam.
Disse tanto;
Ocultou tanto;
Gesticulou muitíssimo no espaço só, que os dois discutiam.
O espaço estreitou e empurrou os dois para outra dimensão,
Aonde até hoje predomina a mesma discussão de um eu só,
Enquanto na ausência de palavras do outro, o falante sente a consequência das que sobram e terminam como pó.
...

®i©o
Ü

sábado, 6 de maio de 2017

Nostalgia

Às vezes não me entendo.
Sinceramente não me entendo.
Eu juro que gostaria de ser diferente; gostaria de ser mais forte.
Eu juro que me esforço e sempre estou tentando me convencer que eu posso ou vou conseguir.

Tem dia que parece que estou chegando lá; outros dias me pego lembrando de tanta coisa. É aí que percebo o quanto sou frágil, fraco, simples, medroso, temerário, e por que não dizer "covarde"?

Sim, estou no divã. Estou quase em pânico, por assim dizer. A nostalgia tem batido com muita força e talvez isso explica porque estou sempre no chão; sempre me levantando; sempre pensando que estou livre. Mas a porta, o portão e a rua estão abertos e não consigo sair. O carro na garagem me convida e a chave se encontra na ignição, mas não me movo do lugar. Minha moto, com o guidom voltado para o lado, dá um tom triste ao mirar em direção ao chão; quase me comove e o pior: tenho dois capacetes, tenho cilindradas o suficiente para ir tão longe, tenho o dinheiro, tenho o tempo... inclusive tenho até ideia de onde eu poderia ir. Entretanto, vou com quem?Aqui está a nostalgia; exatamente aqui.

Minha impotência zomba de mim; bate na face e deixa marcas, como sempre, marcas de vontade que tem de despertar-me. Mas quando penso em reagir, percebo que não dá mais; é tudo em vão. Então, o conflito. O conflito traz a lembrança, que traz a saudade, que traz a nostalgia, que traz a saudade, que traz a covardia e tornam minha força como um fio de cabelo amarrado em tudo isso e eu tentando arrastá-los enquanto sigo meus passos - isso quando ando.

O resultado é mais que óbvio: no primeiro passo o fio se arrebenta e tudo vai ficando pra trás. O que eu faço? Pego novamente o fio, amarro de novo e lá vou eu tentando carregar tudo isso. Então se arrebenta novamente e algumas vezes - como agora - estou no chão outra vez. O que vou fazer? Me levantar, como sempre faço.

O que prevejo é o que se passou, pois sempre se repete: eu me levanto, caminho um tempo sem tudo isso amarrado em mim, mas acabo voltando ao mesmo lugar tempos depois e, pego novamente o fio, amarro nas costas e começo arrastar, pois não quero deixar isso pra trás. Contudo, o fio se arrebenta de novo e o processo recomeça.

Por mais que eu tente, acabo voltando ao mesmo lugar, às mesmas lembranças, ao mesmo cheiro, ao mesmo perfume, à mesma música, ... Dio Santo! Voglio meglio per me... 

O perfume ainda é como tinta fresca.

Mas aqui vou eu caminhar mais um pouco. Quem sabe um dia o capacete que sobra será usado?

Certas imagens estão a um fechar de olhos de distância. Então não me peça para abrir os olhos, não agora, por favor!


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Tagarelice!

Não vou deixar a tagarelice roubar minhas palavras.
Não permitirei minha gula trazer pesadelos
Farei menos esforço para entender o mundo

Brincando sério, me afastei do riso
Agora surto com minha sobriedade
E a insanidade para mim ficou no desuso

Me tornei altruísta
E em troca recebi descaso
Sem problemas; minha vida planejei a longo prazo

Falarei o necessário?
Não vou mais ligar pro horário
Que teima em forçar-me a ser tão certinho

Percebo a tagarelice se aproximando
Ao passado e futuro em divagações me levando
Ao perscrutar meus pensamentos estranhos

...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ainda Eu...

Sim, ainda estou aqui.
Quase não me encontrei em meio aos meus próprios desencontros.
Certo de que você também me procurava.
Então, você me achou de novo.
Eu me perdi de mim, e tirei os olhos de você.
Será que tirei mesmo?

Mas ainda estou aqui...
A paciência do meu ódio me deixa nervoso;
A passividade das minhas urgências me deprimem.
As minhas brincadeiras já não me levam mais a sério
E isso se torna um problema quando tento sério brincar de novo.
Paro ou continuo?

Eu aqui... ainda e
Minhas lágrimas riem quando caem
E sua queda, de engraçadas me doem.
Minha dor se esvai como a lágrima que cai
Mas não ri nenhum pouco quando dos olhos saem.
Pareço ter o controle?



terça-feira, 28 de junho de 2016

Correspondência

Escrito sobre carne que forma e sustenta o envólucro
Foi destinado somente àqueles que sabem ler.
Mas extravios acontecem.
A demora foi considerável
Para perceber que não encontraria o endereço.
Passou dias nas mãos do carteiro que, sem sucesso,
Pensou em devolver ao remetente.

Mas a tentação foi maior que o dever de devolução.
Sem pensar nas consequências,
Rompe-se o envelope
Depara-se com letras garrafais
Escritas com sangue.
Entretanto, eram palavras difíceis de entender
E no caso do carteiro, impossível.

Com a matéria-prima perecível na mão,
Percebeu que a violação da correspondência
Lhe tornava réu, por justíssima causa.
Temendo o julgamento e condenação,
Procurava quem pudesse ler
Para saber o grau de complexidade
Nas palavras que  em carne viva
Teimavam em nada responder-lhe
O que estava escrito naquele coração.

Pôs de volta no envelope rasgado
E com o endereço quase danificado.
Selou-o novamente sobre a fissura
Que não continha o sangue que minava
Das letras que para ele nada falavam
E misturou-a entre as outras cartas
Mui brancas em seus envelopes selados

Entretanto, o sangue salpicou-as todas;
Qualquer que muito perto lhe encostava
Sua marca ali ficava.
Agora seu crime produzira evidências incontestáveis
E seu coração sangrou de remorso
Por se tornar criminoso a troco de nada.

Arrancou-lhe o próprio coração,
Escreveu nele em letras semelhantes em formato
Mas com palavras, que na sua língua revelava seu ato.
Nomeou-se como remetente,
Selou novamente o envelope, agora em outro envólucro
E despachou novamente
Sem saber ao certo se chegaria de volta
Ao verdadeiro remetente.

®ico






quarta-feira, 27 de abril de 2016

VERTIGEM

Acima de nós, as constelações;
Abaixo de nós algumas estrelas cadentes;
Alguns zilhões de distância entre uma coisa e outra.
No repente, uma estrela morre.
Quem se importa? Afinal, olha quantas sobraram!
Olhei ao lado, mas eu estava só.
Falava sozinho!
Vejo-as nas noites, longe dos tumultos.
Só eu as vejo.
Suspenso, à deriva nesse universo escuro,
Acreditando que posso ainda chegar até à luz daquela que mais brilha,
Vou sem me importar com a distância.
Sim, vou pousado em um meteoro,
Rasgando o vácuo.
Não adianta gritar daqui, não se propaga.
Entretanto o clarão parece ficar mais perto
A cada vez que o contemplo, desejando chegar,
A distância parece diminuir.
Daqui não há céu;
Não há terra;
Só o infinito que me cativa,
Motiva e me leva
Através das galaxias.

sábado, 9 de abril de 2016

Pudor

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca.
"Sílfide", por exemplo.
É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta.
Não tem nada a ver com o que a palavra significa.
"Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante.
Mas experimente dizer "silfo".
Não voou, certo?
Ao contrário da sua mulher, "silfo" não voa.
Tem o alcance máximo de uma cuspida.
"Silfo", zupt, plof.
A própria palavra "borboleta" não voa, ou voa mal.
Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede.
Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha".
Esta não voa mas paira no ar, como a neblina das manhãs até ser desmanchada pelo sol.
...

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sílfede

Passaste sílfide
À luz da lua
Coa face nua
Sem ter um véu!
Eu vi-te pálida
Olhar chorando
De quando em quando
Pro ermo céu!

quinta-feira, 7 de abril de 2016

CLARO

claro como a luz do dia
se via nos seus olhos que você não sorria de verdade
percebia-se que o desconforto do fingimento em sorrir
não era nada além de uma falsidade
tão duro foi pra você aquele momento
pois não é do seu feitio esse comportamento
todos notaram e comigo comentaram
se eu sabia o que estava acontecendo
já que seu sorriso possui um poder tão cativante
e naquele momento de embaraço e sufocante
tal poder se esvaiu de descontente.

juro que eu queria que aquele momento acabasse
e dali saíssemos pra respirar ares de novidade
aonde não precisasse fingir um simples sorriso
nem dar satisfação da nossa intimidade.
então me restou te fazer um pedido
para que sorrisse para mim em legitimidade
já que naquele lugar não havia motivo
além de ser um ambiente falso e cansativo
então pude ver novamente em seu olhar
e sua boca com um sorriso espetacular
que para mim presenteavam
mesmo que eu não fosse digno deles ganhar.

®!©Ѻ

ISSO QUE VEJO

Os dias não têm sido como antigamente
Nem as horas nos esperam ou nos notam.
Os minutos se acumulam nas horas,
Que se amontoam nos dias
Que sempre se findam
Nas noites que se somam.

Mas os dias me apresentam o ar
Que ainda me traz a brisa
Que sorri para mim ao passar levemente
E meu pensamento se eleva radiante.

Fecho os olhos e vejo os campos verdes
Levemente tocados pelo mesmo sopro divino
Que refresca meu rosto que ainda a sente.

Mal posso esperar para ir aos campos
Ser tocado pelo mesmo vento
Que de suave se transformou de novo em brisa.

Mal posso esperar o tempo
Que de teimoso me lembra o vento
Que soprará para longe a nostalgia
E me trará no lugar
Belos dias
Com inesquecíveis horas de alegria
E minutos eternos
De uma hora que não se finda

Porque hás de continuar soprando em mim
Esperança de que quando estivermos juntos
Nossa alma será uma só

No frescor do amor que nos domina.

®Ѻ