quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Estações

Estes dias tem sido como um período de mudança de estação. Me sinto como uma árvore sofrendo as transformações que a ocasião forçosamente impõe. O vento tem vindo forte, assoprado minhas folhagens e arrancado as folhas sem piedade. A princípio é até doloroso ver ao chão parte de mim, mas folhas nascem de novo; o tronco é o mais importante, e este sim permanece firme.

A chuva se ausentou faz muito tempo; sobrevivo do orvalho que o céu, por compaixão ainda permite que caia sobre mim. Já não há mais sombra; já não há mais atração suficiente que desperte em alguém o interesse de ao menos ver minha sequidão. Os passarinhos foram embora; já não ouço mais seu canto por entre as folhagens. Preso estou em um solo firme, que temo ser arrancado e não sobreviver.

Vejo belas as árvores no campo e as admiro sem parar; vejo o vento que lhes batem suavemente balançando suas copas elegantemente, enquanto eu pouco me mexo; o vento passa por entre o esqueleto sem folhas e não encontra nenhuma resistência, indo e vindo, quase zombando deste ínfimo vegetal, exposto à mudança e ao constrangimento que a mesma traz.

Mudança! parece isso que muitos de nós precisamos. Alguns mudam rápido, mas isto se deve à espécie; árvores que vivem muitos anos demoram muito admitir a mudança da estação. Contudo, isto faz bem; faz parte da vida de uma árvore. O sol brilhará independente da estação. E já que o sol brilha para todos, resta me a esperança de sobreviver com toda a feiura que este tempo me trouxe e esperar os novos brotos que em breve hão de nascer.

Uma folha para você!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Beligerante Sempre

Lutar contra mim mesmo é uma guerra quase perdida.
 Mas mesmo assim eu não me entrego.
Busco minhas próprias batalhas, me desafio o tempo todo e acabo me ferindo.

Como poderia ser diferente? Se fosse, não seria um estado beligerante.
Travo minhas próprias batalhas; perco para mim mesmo e sempre luto contra o mesmo adversário e nunca aprendo.
Que merda. Só não espero morrer na guerra, porque ferido eu estou faz muito tempo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Os Escaladores

Hoje sinto como se várias pessoas estivessem escalando a parede do meu coração, não com cordas lisas e sim com cipós trançados, cheios de espinhos e sinto como se estivessem em um despenhadeiro ou um profundo abismo, pendurados; balançando de um lado para o outro e a cada vez que os cipós encostam, sangram. O sangue lhes cai sobre os olhos e impede a visão ao olharem para cima. Então ficam ali parados por alguns minutos, até que alguém começa o balanço de novo.

O que desce nos paredões não é água de uma bela cachoeira; é o sangue que mina pelas perfurações dos espinhos dos cipós. Mas devo admitir que isso me faz bem. Quando olho para baixo, não estou entregando os pontos; estou apenas olhando para eles, os escaladores; para ver se já saíram do lugar, se já desceram, se já subiram ou se ainda permanecem ali estáticos, sem subir ou descer. Assim posso ter uma noção de quanto tempo a diversão ainda vai durar. Pelo menos a diversão deles.

Mas isso podem ser apenas divagações de uma mente insana. Não se importe muito com meus devaneios, mas alguém precisa se divertir. Por hora vou permitir, mas uma hora eu corto o cipó. Tenho acesso ao coração, contudo para chegar não é fácil; exige bom preparo e a gente só vai lá quando quer decidir alguma coisa. E se eu for, será para cortar o cipó e sei que o preciso fazer; não tenha dúvida. Só preciso chegar sem me machucar, mais do que já estou. Cortar o cipó não consiste na morte dos escaladores, mas sim no estancar o sangramento.

Geralmente quando a gente corta o cipó a gente sabe se sobreviveram à queda, pois a poça de sangue embaixo pode ser a salvação dos miseráveis que balançaram até não suportarmos mais. Mas quando maltratam demais e não dá tempo de preparar um lugar para que caiam, na maioria das vezes não escalam mais. Entretanto, precisam saber que o local que estão brincando não suporta brincadeira de mau gosto. Os cipós geralmente somos nós mesmo que produzimos, mas isso não dá o direito de ninguém se balançar neles.

E quando queremos escalar o coração de alguém com cordas ‘do bem’? Eu diria que é válido, desde que não sangre. Ás vezes não escolhemos os escaladores, mas sempre tem alguém sondando uma maneira de se aventurar por lá.

Se eu pendurar em um cipó no seu coração, será para arrancar os espinhos dele. Minha diversão nunca será à custa da sua dor. Na verdade sei que estou lá.




Como Sempre!


Eu sou meio destrambelhado mesmo.
Lembro-me e logo esqueço; estou bem hoje, amanha enlouqueço.
Se triste, ouço uma música estranha;
Se alegre, volto às origens e procuro alguma coisa que me ganhe.
Enfim, eu sou apenas o fim de um começo meio confuso.
E encontro minha razão, no fim ou no começo?
Ainda estou tentando achá-la, mas sempre foge quando a procuro
E sempre me surpreende quando não a espero.
Sim, isso me ajuda, como também me maltrata muito.
Hoje não estou muito bem, mas amanha será outro dia também.
Pode ser que nele apareça alguém e me diga:

Livre-nos da dor da poesia, amém!

Tem sido assim


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Esta semana

Pena que os livros de papel ainda não tocam músicas. Porque se tocasse, eu enviaria a canção que compus para você enquanto escrevia meu livro de romance.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sim, sim

Sou tudo e o nada
de um quase tudo que termina em migalha.
sem rumo, sem teto e sem estrada
sem paradeiro que me hospede bem
sem perguntar por mal ou por bem
o que tenho nesse dia terrível
que me fez pegar a estrada sem ter planejado;
que anda na contramão bem ao lado
esperando a carona do meu tão esperado
desejo de anoitecer descoberto
e amanhecer contigo abraçado.

Pernas doendo, pés castigados pelo calor do sol
Que maltrata o asfalto
Que se pudesse gritaria bem alto:
desça chuva, e molhe minhas listas pontilhadas
minhas faixas contínuas
E alivie meu amigo que caminha comigo
assoviando uma música do renato
que diz:
todos os dias quando acordo...

Carta

Carta lida, segredo contado
Exposto ao ridículo por causa de devaneios sem nexo
Que expressam o amor, a dor
O sexo.

Letras grandes que ninguém entende
É por que usa uma linguagem pessoal e intima
Que jamais um leigo entende
Se não viver a mesma coisa nesse mundinho da gente

De início bonito
Meio maravilhoso
Fim estranho
Sem ter sido planejado.

O remetente sou eu
Que escrevo à mim mesmo
Sem resposta fico
Jogado no canto à esmo.

Não abra a correspondência
Fuja da tentação de descobrir
O que tanto digo
Nas letras que escrevi.

Papel e caneta na mão,
Lá vou eu de novo...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eu Comigo

Me perdi em mim de novo
Sufoquei meu próprio fôlego mais uma vez
Repeti o erro de sempre
Pedi bis ao meu próprio eu

lacrimejei sim, não nego
Muito provável que ferirei meu orgulho
Sei que vou sentir raiva de mim
Mas por um momento eu sei que me entrego

Me deixo de lado quando me pego surtando
Sinto uma dor que me faz bem
Quando vejo que toda essa gente
Não passa de nada; ninguém.

Esmurro meu corpo com a força que tenho
Gasto o trocado que sobrou com coisa sem necessidade
Mas me satisfaço com a falta que sinto
Pois me mantém vivo para tentar a saudade

Corto os pulsos em pensamento
Grito em silêncio no quarto escuro
Inconstante eu fico, às vezes
Como alguém que diz estar em cima do muro

Caio no chão sem motivo algum aparente
Ouvindo o som da chuva que passa
E que deixa o cheiro de terra molhada no ar
Trancafiado num futuro presente

Mordo a língua enquanto como
Tropeço nas coisas quando ando
Derrubo os copos sem querer
Estabanado fico mais por não saber o que vai acontecer e quando

Cantarolando fico uma música inexistente
Assovio o nada por entre os dentes;
Canais de televisão sem nenhum atrativo
E a noite que se estende seu fim é distante

Toda vez que vou ao banheiro paro na geladeira para beber água
Volto ao banheiro para expelir a água de antes
E abasteço de novo essa sede
De uma água ausente

Penso milhares de coisas ao mesmo tempo
Sem ter nada sólido para realizar
Fico horas escrevendo coisas chulas
Mas que me fazem companhia quando lembro de ti,
Minha amada...



Então é isso!

Mas por que eu?

 *Estraçalhado,

Amordaçado, estupefato, mortificado.

Sucumbido à nostalgia, de uma melancolia

Que para meu próprio bem já poderia ter terminado.

 *Inválido,

Sufocando o grito que não pode ser ouvido,

Fiz da minha voz uma ave que voa sozinha,

Sem demonstrar às outras, ter o rumo perdido.

*Louco,

Lancei-me de olhos fechados e sem medo,

Por não poder resistir ao que mais temia:

Suas águas límpidas que me lavaram a alma da nostalgia.

*Triste,

Fiquei o tempo todo quando saí da água

Que não mais se moveu à molhar-me na sequidão,

E agora peno por existir apenas sinais de rachaduras no chão.

 *Agonizo,

Não simplesmente pela sede,

Mas pelo corpo que padece e grita ao incrédulo:

Vinde e vede.

 *Escapo,

Somente com tua gota de frescor

Para molhar-me de novo,


E ao cair sobre mim alivia a dor.