terça-feira, 15 de julho de 2014

Só o HOJE

Hoje não se comemora nada. Não se lembra de nada. Apenas não se esquece tudo. Não se encerra um ciclo nem se começa outro. Não se vinga uma mágoa, não se renova o ódio; não se esconde de algo, tão pouco se poupa de absurdo.

Hoje não me pergunto coisa alguma; não tropeço nas coisas nem coisas há para que eu as veja; não vi os amigos que sempre me oferecem cerveja; não liguei para ninguém, nem solicitado fui no telefone. Não reclamei dos políticos; não queria ir à Igreja; não falei mal das pessoas, não falei muito, contudo disse alguma coisa, com coisa alguma.

Hoje pensei que lembrava, mas logo esqueci no que pensava; queria rir, mas na falta de achar graça quase choro por motivo nenhum. As águas dos olhos se foram e esconderam o sorriso que certamente não sairia. Corri como se estivesse parado; parado fiquei com a mente correndo do medo que eu não tinha.

Hoje não comi direito e não dei crédito à fome que me perseguiu com causa. Não a atendi por não ter sido atendido quando eu não a saciei. Parei de ir ao desejo que não me desejava em nenhum momento. Meditei no nada e esvaziei minha mente do tudo que me perturbava, para enchê-la das comemorações que eu planejava.

O hoje só coube uma lembrança que já esqueci.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Guardador de Rebanhos (Fernando Pessoa)

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Tabacaria (Fernando Pessoa)

...

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Vitrais

Dentro de mim há grandes vitrais.
Se entrares perceberás que as cores se misturaram.
O vermelho do sangue que se esvai
Misturou-se ao pálido, cinza e seco chão
Cujo outrora me apoiava os pés
Agora quase se abre,
Deixando somente escuridão.

Os vitrais empoeiraram por fora
E por dentro já se trincam com o tempo
A história neles contada, em parte é banalidade
Parte é vida que me custa a liberdade
Parte que me tortura
Mas também traz lembranças tão suaves e agradáveis
Como a delícia da brisa de um vento!

Os "assentos de mim" já não suportam o peso dos que olham.
As canções que se ouvem já soam roucas
Mas as letras ainda transmitem uma mensagem
Que podem ensinar alguma coisa
Mesmo que as sílabas sejam poucas
Se corretamente exploradas
Ainda podem se comunicar com outra linguagem.

Há vitrais em mim quebrados
Tantas foram as pedradas 
Lançadas do lado de fora
E também do lado de dentro.
Alguns vidros não resistiram,
Se partiram mas não levaram os pedaços da história
Que neles desenhada permanece no centro.

Se vieres para ver meus vitrais
Traga ao menos um pouco de gratidão
Por abrigar-te dentro de mim
Onde o espaço de mim lhe trouxe reflexão
E o que aprendemos fica como lição
Que mesmo não guardando para a vida toda
Nos mantém mais racionais
E menos vândalos
Quando estamos perto de um coração.


¨ºº¨ ®ico