terça-feira, 28 de junho de 2016

Correspondência

Escrito sobre carne que forma e sustenta o envólucro
Foi destinado somente àqueles que sabem ler.
Mas extravios acontecem.
A demora foi considerável
Para perceber que não encontraria o endereço.
Passou dias nas mãos do carteiro que, sem sucesso,
Pensou em devolver ao remetente.

Mas a tentação foi maior que o dever de devolução.
Sem pensar nas consequências,
Rompe-se o envelope
Depara-se com letras garrafais
Escritas com sangue.
Entretanto, eram palavras difíceis de entender
E no caso do carteiro, impossível.

Com a matéria-prima perecível na mão,
Percebeu que a violação da correspondência
Lhe tornava réu, por justíssima causa.
Temendo o julgamento e condenação,
Procurava quem pudesse ler
Para saber o grau de complexidade
Nas palavras que  em carne viva
Teimavam em nada responder-lhe
O que estava escrito naquele coração.

Pôs de volta no envelope rasgado
E com o endereço quase danificado.
Selou-o novamente sobre a fissura
Que não continha o sangue que minava
Das letras que para ele nada falavam
E misturou-a entre as outras cartas
Mui brancas em seus envelopes selados

Entretanto, o sangue salpicou-as todas;
Qualquer que muito perto lhe encostava
Sua marca ali ficava.
Agora seu crime produzira evidências incontestáveis
E seu coração sangrou de remorso
Por se tornar criminoso a troco de nada.

Arrancou-lhe o próprio coração,
Escreveu nele em letras semelhantes em formato
Mas com palavras, que na sua língua revelava seu ato.
Nomeou-se como remetente,
Selou novamente o envelope, agora em outro envólucro
E despachou novamente
Sem saber ao certo se chegaria de volta
Ao verdadeiro remetente.

®ico






quarta-feira, 27 de abril de 2016

VERTIGEM

Acima de nós, as constelações;
Abaixo de nós algumas estrelas cadentes;
Alguns zilhões de distância entre uma coisa e outra.
No repente, uma estrela morre.
Quem se importa? Afinal, olha quantas sobraram!
Olhei ao lado, mas eu estava só.
Falava sozinho!
Vejo-as nas noites, longe dos tumultos.
Só eu as vejo.
Suspenso, à deriva nesse universo escuro,
Acreditando que posso ainda chegar até à luz daquela que mais brilha,
Vou sem me importar com a distância.
Sim, vou pousado em um meteoro,
Rasgando o vácuo.
Não adianta gritar daqui, não se propaga.
Entretanto o clarão parece ficar mais perto
A cada vez que o contemplo, desejando chegar,
A distância parece diminuir.
Daqui não há céu;
Não há terra;
Só o infinito que me cativa,
Motiva e me leva
Através das galaxias.

sábado, 9 de abril de 2016

Pudor

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca.
"Sílfide", por exemplo.
É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta.
Não tem nada a ver com o que a palavra significa.
"Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante.
Mas experimente dizer "silfo".
Não voou, certo?
Ao contrário da sua mulher, "silfo" não voa.
Tem o alcance máximo de uma cuspida.
"Silfo", zupt, plof.
A própria palavra "borboleta" não voa, ou voa mal.
Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede.
Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha".
Esta não voa mas paira no ar, como a neblina das manhãs até ser desmanchada pelo sol.
...

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sílfede

Passaste sílfide
À luz da lua
Coa face nua
Sem ter um véu!
Eu vi-te pálida
Olhar chorando
De quando em quando
Pro ermo céu!

quinta-feira, 7 de abril de 2016

CLARO

claro como a luz do dia
se via nos seus olhos que você não sorria de verdade
percebia-se que o desconforto do fingimento em sorrir
não era nada além de uma falsidade
tão duro foi pra você aquele momento
pois não é do seu feitio esse comportamento
todos notaram e comigo comentaram
se eu sabia o que estava acontecendo
já que seu sorriso possui um poder tão cativante
e naquele momento de embaraço e sufocante
tal poder se esvaiu de descontente.

juro que eu queria que aquele momento acabasse
e dali saíssemos pra respirar ares de novidade
aonde não precisasse fingir um simples sorriso
nem dar satisfação da nossa intimidade.
então me restou te fazer um pedido
para que sorrisse para mim em legitimidade
já que naquele lugar não havia motivo
além de ser um ambiente falso e cansativo
então pude ver novamente em seu olhar
e sua boca com um sorriso espetacular
que para mim presenteavam
mesmo que eu não fosse digno deles ganhar.

®!©Ѻ

ISSO QUE VEJO

Os dias não têm sido como antigamente
Nem as horas nos esperam ou nos notam.
Os minutos se acumulam nas horas,
Que se amontoam nos dias
Que sempre se findam
Nas noites que se somam.

Mas os dias me apresentam o ar
Que ainda me traz a brisa
Que sorri para mim ao passar levemente
E meu pensamento se eleva radiante.

Fecho os olhos e vejo os campos verdes
Levemente tocados pelo mesmo sopro divino
Que refresca meu rosto que ainda a sente.

Mal posso esperar para ir aos campos
Ser tocado pelo mesmo vento
Que de suave se transformou de novo em brisa.

Mal posso esperar o tempo
Que de teimoso me lembra o vento
Que soprará para longe a nostalgia
E me trará no lugar
Belos dias
Com inesquecíveis horas de alegria
E minutos eternos
De uma hora que não se finda

Porque hás de continuar soprando em mim
Esperança de que quando estivermos juntos
Nossa alma será uma só

No frescor do amor que nos domina.

®Ѻ

quinta-feira, 24 de março de 2016

Eu estive aqui

Eu estava em todo lugar nesse dia
Estava nos lugares que a memória não foi capaz de apagar
Na noite estive
Ao dia também
Se por certo ou não
passei nos caminhos outra vez
Que antes caminhei
E encontrei ainda as pegadas deixadas
Então comecei a segui-las

Em alguns lugares estavam tão nítidas
Que tive a sensação que chegaria a algum lugar
Mas um forte vento soprou
E algumas marcas ele apagou
O caminho ainda existe e
Algum sinal no caminho ainda subsiste
Mas o tempo está muito mudado
E a chuva que cai está apagando o restante das pegadas
E renovando o caminho
Tornando as marcas apenas sinal do passado.

®!©Ѻ